A divulgação feita pelo site The Intercept Brasil de mensagens trocadas via Telegram envolvendo figuras como o ministro da Justiça, ex-juiz federal Sérgio Moro, e o procurador Deltan Dallagnol, revelam uma série de ilegalidades cometidas nas condenações da Operação Lava Jato e põe a público o caráter parcial da justiça brasileira, ou seja, como ela é utilizada para perseguir politicamente determinados indivíduos. Em resposta aos vazamentos, os meios de comunicação como a Rede Globo e outros defensores de Sérgio Moro e da Lava Jato trataram de blindar seus aliados, inundando os jornais e a internet com notícias sobre supostos hackers que teriam invadido o celular de Moro e de outras autoridades, tirando assim o foco das graves irregularidades cometidas durante a Lava Jato. Neste texto, eu irei demonstrar tanto os furos, do ponto de vista técnico na história de “hackers” divulgada pela grande mídia, quanto ao propósito político de tais mentiras. 

A importância do sigilo da fonte no jornalismo e como ele funciona em tempos de internet

O sigilo da fonte é a matéria prima do jornalismo investigativo: sem esse sigilo, o jornalista não consegue o consentimento das fontes, já que uma denuncia feita de forma não anônima torna o denunciante alvo de perseguição e coação por parte dos indivíduos ou entidades denunciadas. Se as fontes tiverem suas identidades reveladas, correm o risco de perderem seus empregos, de serem agredidas ou até mortas por adversários políticos ou mesmo por Estados autoritários. No Brasil, esta questão merece atenção especial, afinal, não podemos esquecer que a polícia brasileira é a mais violenta do mundo, e que o presidente Jair Bolsonaro, chefe de Sérgio Moro, é um defensor de torturadores e da tortura como método policial, ou seja, de uma repressão constante do Estado.

Para aqueles que trabalham com segurança da informação, é bastante óbvio que jornalistas que prezam pelo sigilo da fonte precisam ter ferramentas de anonimidade bastante sofisticadas: ao menos um acesso via rede onion para a fonte seria necessário. O The Intercept, por exemplo, possui tanto acesso via rede onion, cujo endereço é http://intrcept32ncblef.onion/?l=pt_BR, quanto uma conta no Signal, de número (21) 97672-8175

Os metadados – que são informações sobre as conversas do Telegram, como a data da exportação das conversas do Telegram, o tamanho do arquivo ou qual aplicativo o criou – além de dizer muito sobre a veracidade da informação, também podem ser utilizados para revelar a identidade de uma fonte. Portanto, o jornalista que leva a sério o sigilo da fonte precisa fazer uma filtragem do que será divulgado, mostrando somente o conteúdo e ocultando os metadados da exportação das mensagens. Esse é o motivo principal pelo qual o The Intercept não entrega os arquivos para perícia de uma polícia, e soam muito infantis esses pedidos do ministro Sérgio Moro e de integrantes do PSL.

A fraude eleitoral de Sérgio Moro

Quando Sérgio Moro falou na comissão de ética do Senado que “precisamos endurecer as penas para crimes digitais”, na verdade o que ele quer dizer é “vamos reprimir duramente os ativistas digitais e jornalistas”. E o interesse de Moro com este “endurecimento” é acobertar as irregularidades, como esse duplo papel de julgar e de conduzir a Operação Lava Jato.

Não estamos falando de um democrata, Sérgio Moro organizou uma farsa para roubar as eleições de 2018: fez grampos e vazamentos ilegais [2], usou o tribunal onde era juiz federal (possivelmente até desviando dinheiro deste tribunal para fazer propaganda na Globo), atuou em conluio com Ministério Público e a Polícia Federal na coordenação da Operação Lava Jato, sendo que a lei não permite que um juiz (portanto, integrante de um poder que supostamente é separado do Executivo Federal) dê auxílio à uma força-tarefa de procuradores e policiais federais como a da Lava Jato. O procurador Deltan Dallagnol, formalmente coordenador da força-tarefa da Lava Jato, era um mero lacaio de Sérgio Moro, dando inveja a qualquer sidekick de filme B.

As conversas entre os juízes e promotores divulgadas pelo site The Intercept revelam que eles atuavam com o objetivo de cercar os réus escolhidos pelo Ministério Público, considerando-os culpados muito antes da obtenção de provas ou até de indícios de corrupção, além de uso desse aparato todo para censurar durante as eleições, e impedir, a eleição do candidato em primeiro lugar em todas as pesquisas, como de também para destruir a imagem da Petrobrás, abrindo caminho para que ela e suas subsidiárias sejam privatizadas, caindo nas mãos de empresas dos países que controlam o mercado financeiro. A ideia de que vivemos em um Estado democrático de direito, com liberdade de expressão, eleições democráticas e soberania nacional está posta em cheque; está a vista que é uma furada. 

Quando falamos de “aparato”, pensem que cada policial, procurador ou (principalmente) juiz possui: assessores, verbas de uso de tribunal, armas, carros, computadores, e toda uma estrutura garantida pelo Estado (paga pelos impostos dos trabalhadores, diga-se de passagem). Se tudo isso é voltado para os projetos dessa classe cheia de recursos, que controla isso tudo, e interesses pessoais destes juízes e procuradores, como bem mostram os vazamentos do The Intercept, quem poderia acreditar que essas pessoas trabalham para o bem geral da população?

Para Sérgio Moro, Hackers são iguais a estelionatários

Quando todos começavam a saber o quão podres são nossos poderes Executivo, Legislativo e, em especial, o Judiciário, os veículos da imprensa que defendem Sérgio Moro contra-atacam com uma mentira: um grupo de estelionatários – um que se passava por DJ, sua companheira e um terceiro vigarista –  teriam invadido celulares dos juristas mais conhecidos do país utilizando uma falha de telefonia, para vazar dados para o The Intercept.

O que soa muito estranho para mim são as provas apresentadas e as explicações técnicas fornecidas até agora pela polícia do Sérgio Moro.

As provas encontradas e divulgadas na imprensa foram uma mala de dinheiro com notas de 100 e 50 reais, e uma foto do notebook do suposto hacker, usando Windows 10 e dezenas de ícones para as supostas contas de Telegram invadidas. A foto do notebook, em especial, levanta suspeitas, pois embora pareça normal para um leigo trabalhar em um computador clicando em ícones na área de trabalho do Windows, para qualquer um que entenda minimamente sobre segurança da informação iria parecer ridículo operar dessa maneira ao invés de usar Linux (um sistema operacional mais seguro e poderoso que o Windows) via linha de comando.

A explicação técnica para a invasão dos celulares não é menos estranha. Para a polícia, os supostos hackers invadiam os celulares roubando o código de acesso ao Telegram da vítima. Este código de acesso é uma medida de segurança do Telegram contra invasores: ele é gerado e enviado via SMS ao celular do usuário toda vez que um computador ou outro dispositivo tenta acessar a sua conta, de modo que este outro dispositivo só poderá usar a conta após ser inserido o código de acesso que foi enviado ao celular. O truque usado para que o hacker pudesse obter o código de acesso consistiria em, conhecendo e usando o número de celular do alvo, acessar a conta de Telegram da vítima pelo computador via Telegram Web enquanto, simultaneamente, fazia ligações para o número de celular da pessoa, forçando o código de acesso a cair na caixa postal do celular. Depois, aproveitando-se de uma falha das operadoras de telefonia, os hackers usavam senhas padrão da operadora para acessar a caixa postal do celular da vítima e obter seu código de acesso.

Esse “script” apresentado pela polícia apresenta os seguintes problemas:

  • Quando você tenta acessar o Telegram de um segundo dispositivo, ele envia uma mensagem com o código de acesso para as instâncias já logadas do Telegram. Só depois de 2 minutos, se o código não for usado, o Telegram envia o código via SMS. Ou seja, Sérgio Moro e as outras vítimas teriam recebido o código de acesso em seu Telegram, e saberiam da tentativa de invasão. Se isto de fato aconteceu, por que nenhuma delas tomou providências quando foram alertadas da invasão?
  • Os hackers teriam que ter acessado a caixa postal de todas as duas milhares de pessoas as quais eles são acusados de ter invadido o Telegram. Como algo deste tamanho pôde passar despercebido por todos, inclusive pelas operadoras telefônicas?
  • A polícia afirma ter descoberto a identidade dos bandidos a partir do endereço IP que foi exposto no momento em que eles acessaram, via VoIP (tecnologia de telefonia via internet), a caixa postal das vítimas para se apoderar dos códigos de acesso. Porém, os hackers poderiam ter facilmente ocultado seu IP utilizando tecnologias como VPN ou uma rede Onion. Como poderiam eles serem tão descuidados, sabendo que os alvos de seus ataques eram juízes, políticos e outras autoridades?

De tudo isso, percebe-se que somente uma sequência estranhíssima de fatos faria com que a história contada pela polícia fizesse sentido: os hackers precisariam ser extremamente amadores, todas as duas mil vítimas precisariam ser extremamente descuidadas e, por fim, as empresas de telefonia, a polícia e outras autoridades precisariam ser extremamente incompetentes. Tais circunstâncias, aliadas ao nítido interesse de Sérgio Moro e dos procuradores em deslegitimar as denúncias do The Intercept, nos fazem acreditar que toda essa história de hackers é uma grande mentira.

O que é um Hacker?

O conceito de Hacker tem sido a décadas completamente deturpado e transformado no conceito abstrato de “criminoso”, e é em cima desta deturpação de conceito em que “surfam” as notícias sobre a invasão dos celulares de Moro e dos procuradores. Nós como Infoproletários somos totalmente contra essa acepção!

Repudiamos também a tentativa de usar estas pessoas, que supostamente invadiram milhares de contas de Telegram usando uma falha de telefonia simples (sem a polícia suspeitar durante meses), como uma névoa de mentiras para esconder a farsa que foi a Lava Jato e tudo o que Sérgio Moro faz de errado e asqueroso.

Hacker, segundo o dicionário mais antigo sobre o termo na internet [3], define que são pessoas que se deliciam em saber as entranhas de sistemas, computadores e redes de computadores. Muitos hackers são também ativistas políticos, usando seus conhecimentos contra corporações abusivas e governos autoritários. Graças à isso, atraíram a antipatia dos poderosos, e é por isso que se tornaram alvo de difamação por parte da imprensa.

Nossas tarefas enquanto Infoproletários

Nossa única saída é coletiva, é nos organizarmos com independência de classe para acabar com este estado, que só serve para ajudar empresas a aumentar seu lucro, esse estado podre, voltado para a explorar e que só serve para reprimir trabalhadores.

Nós estamos organizados no Infoproletários para termos um novo estado, chamado de estado operário [5], que quer dizer um estado de trabalhadores, um estado sempre voltado ao bem comum dos trabalhadores, à qualidade de vida de quem produz e não de quem tem dinheiro para investir, de trabalhadores que se ajudam, que estudam em conjunto a história dos trabalhadores, que estudam técnicas e formas de se proteger dos inimigos, inimigos que são: este estado atual, capitalista, controlado por pessoas como Bolsonaro, Paulo Guedes e Sérgio Moro para o deleite dos investidores.

Referências.:

https://theintercept.com/brasil/fontes

[2] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/04/03/documentos-indicam-grampo-ilegal-e-abusos-de-poder-na-origem-da-lava-jato.htm

[3] https://web.archive.org/web/20160605204821/https://tools.ietf.org/html/rfc1983

https://telegram.org/faq

[5] https://www.marxists.org/portugues/lenin/1918/renegado/cap02.htm

https://hannemyr.com/en/oks97.html