As enchentes de janeiro em Belo Horizonte e fevereiro em São Paulo revelam o descaso de prefeitos e secretários com os trabalhadores. Ilhados, muitos deles passaram por pelo menos um dia sem sequer conseguir sair de suas casas para pegar um ônibus e ir ao trabalho, e outros ainda foram mais afetados e perderam objetos em suas casas para a água que invadiu diversas delas.

Em Belo Horizonte, os prefeitos Alexandre Kalil e Marcio Lacerda investiram em conjunto apenas 20% do orçamento de projetos contra enchentes no período de 2013 a 2019. Em São Paulo, João Dória e seu sucessor Bruno Covas, que assumiu após a desistência do primeiro para concorrer ao governo do estado, tiraram R$156 milhões do orçamento de enchentes da cidade desde 2017, usaram apenas 55% do previsto para 2019, e tiraram R$30 milhões para gastar em privatizações em 2017.

A tragédia nas duas cidades era anunciada e planejada. Os prefeitos sabiam dos riscos em que colocavam os trabalhadores ao fazerem estes cortes.

Trabalhadores cujos sindicatos não têm acordos coletivos com seus patrões podem ter o dia de falta descontado. A CLT não dá faltas por enchentes como justificadas, o que significa que patrões podem optar por não pagar o trabalhador que passou o dia ilhado em casa. Trabalhadores forçados à pejotização ou aos serviços precarizados em aplicativos sequer terão a chance de contar com a boa vontade de um patrão e perderão o dia.

Além de os trabalhadores terem o desconto do pagamento nos dias de enchentes se não conseguirem trabalhar, eles correm riscos de vida, seja presos em alagamentos ou tentando limpar a água suja de suas casas. Desde a contrarreforma trabalhista de 2017 finalizada pelo governo federal de Michel Temer, trabalhadores que sofrerem acidentes no caminho para o trabalho, como em uma enchente, não são mais considerados vítimas de acidentes de trabalho. Então, aquele que tiver sua saúde afetada e for forçado a perder mais dias de trabalho não terá suporte nas leis trabalhistas.

O sucateamento dos serviços de saneamento também é um ataque aos trabalhadores. Todos precisam de segurança no caminho para o trabalho, proteção de suas moradias contra esses desastres e a garantia de que o descaso público não se torne mais uma forma de exploração.

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