Por que as empresas de TI catarinenses querem estender o home office?

Em post anterior, anunciávamos que a adoção do trabalho remoto pelas empresas de tecnologia, imposta pela pandemia do COVID-19, logo mostraria-se lucrativa para as empresas. Mostramos também as consequências negativas destas mudanças para o trabalhador.

Tal tendência parece estar se confirmando, ao menos nas empresas de tecnologia de Santa Catarina. É o caso de empresas como Softplan, Neoway e Supero Tecnologia, que estudam a possibilidade de manter o home office até janeiro de 2021. Já a HostGator, onde os trabalhadores já estavam em trabalhando remotamente desde março, anunciou a extensão do período do home office até junho de 2021. O motivo para tal, segundo as próprias empresas, seria o aumento de produtividade percebido durante o período em seus funcionários estiveram trabalhando de casa.

Transferência de custos ao trabalhador

Segundo matéria do G1, uma empresa de São Paulo com 500 funcionários que praticasse home office 2,5 vezes por semana, economizaria de R$2,8mi até R$11mi por ano apenas com aluguel. Certamente as empresas de TI catarinenses obteriam vantagens semelhantes, já que boa parte delas é localizada em bairros com os aluguéis mais caros da cidade.

Além disso, o home office possibilita às empresas cortar custos com água, internet, equipamentos, entre outros. Embora algumas empresas forneçam equipamentos a seus funcionários e/ou ofereçam algum tipo de abono para arcar com custos com luz e internet, dificilmente este valor supera os gastos da empresa com infraestrutura. Isto demonstra que houve não só economia para a empresa como também transferência de custos para o trabalhador.

Maior jornada de trabalho e ritmo de trabalho mais intenso

Fatores inerentes ao trabalho remoto, como a redução de tempo de deslocamento, podem explicar parte do ganho de produtividade propiciado por esta modalidade de trabalho. Por exemplo, há casos onde é possível fazer duas reuniões no tempo de uma ao eliminar o tempo de viagem até o local da reunião.

No entanto, parte deste ganho é devido ao entendimento dos empresariado de que o trabalhador em home office não têm jornada de trabalho definida. Privilegiaria-se então a produção e a entrega em detrimento das horas trabalhadas, não havendo mais o limite de 44 horas de trabalho semanais. Não haveria também o pagamento de horas extras. Organizações empresariais como a ACATE (Associação Catarinense de Tecnologia) inclusive orientam suas empresas filiadas neste sentido.

Na prática, isto faz com que o trabalhador, para atender as demandas, ou trabalhe mais que 8 horas diárias, ou acelere seu ritmo de trabalho. Ambas as situações, apesar de vantajosas para a empresa, causam stress e prejudicam a qualidade de vida do empregado.

Riscos ergonômicos

O home office permite às empresas transferir aos empregados não só parte de seus custos como também de suas responsabilidades com a saúde do trabalhador. Ao adotar o trabalho remoto, as desobrigam-se a organizar seus escritórios de acordo com as exigências legais.

Hoje, nossa legislação obriga as empresas a seguirem a Norma Regulamentadora Nº17 (NR-17), elaborada pelo Ministério do Trabalho para evitar doenças ocupacionais. Tal norma visa garantir que a empresa dispõe de condições de iluminação, nível de ruído, temperatura e mobiliário adequados ao trabalho. Cabe então às empresas realizarem a análise ergonômica do trabalho (AET) para avaliar seu ambiente de trabalho, o que pode ser complexo e custoso.

É fácil perceber que, em muitos casos, o trabalhador individualmente não teria como adequar seu escritório em casa à NR-17. Enquanto questões como altura do monitor ou apoios para os pés seriam simples de tratar, problemas como o nível de ruído de umidade podem ser impossíveis de resolver dependendo de onde o trabalhador mora. A consequência disso é que os trabalhadores ficam mais sujeitos a desenvolver doenças ocupacionais.

Além disso, o cenário para o trabalhador que sofre lesão durante o home office por falta de ergonomia se torna nebuloso. No caso da lesão ocorrer em trabalho presencial, o entendimento da justiça do trabalho é que o trabalhador deve ser indenizado ou afastado. Já com o trabalho remoto, há margem para que a empresa culpabilize o trabalhador afastado. Uma empresa poderia, por exemplo, argumentar que forneceu mobiliário adequado e cartilhas de ergonomia para seus funcionários, e que o trabalhador se lesionou por desleixo.

Por um home office melhor

O trabalho remoto, além de ser uma necessidade em tempos de pandemia, tem o potencial de tornar o trabalho mais confortável e eficiente. Tanto é verdade que boa parte dos trabalhadores da área de TI têm uma visão positiva sobre este regime de trabalho. Porém, ele não pode servir como forma de repassar custos e responsabilidades que antes eram da empresa ao empregado. Um home office benéfico precisaria vir acompanhado de:

  • Auxílio home office mensal em um valor que de fato cubra os gastos do trabalhador com infraestrutura;
  • Medidas para evitar que a jornada de trabalho diária de cada empregado ultrapassasse o limite de 8 horas;
  • Mecanismos para responsabilizar a empresa em casos de acidentes de trabalho e lesões como LER ou DORT.

Trabalho Feminino no Setor de TI

É amplamente difundida, entre as pessoas que trabalham com TI, a história de Ada Lovelace, a primeira programadora da história. São muitos os textos que ressaltam seu pioneirismo e importância ao publicar o primeiro algoritmo para uma máquina computacional, em 1843. A referência a Ada é quase sempre acompanhada da ressalva de que as mulheres são minoria no mercado de trabalho de tecnologias. O que é verdade: no setor de TI brasileiro, por exemplo, as mulheres eram, em 2017, pouco menos de 20% da força de trabalho ocupada.

Outro aspecto que as referências à Condessa de Lovelace costumam lembrar é que a realidade nem sempre foi assim, o que também é verdade. De acordo com a socióloga Barbara Castro (2013), que entrevistou, em sua tese de doutorado², quatro mulheres que cursaram Ciência da Computação na década de 1970 na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). as turmas nessa época eram majoritariamente femininas, e não havia a identificação da computação com o universo masculino. A mudança, segundo constata a socióloga, se dá a partir da década de 1990, conforme a computação vai se tornando central para a dinâmica capitalista e as profissões ligadas às ciências e tecnologias se tornam signos de poder e prestígio. Assim, a baixa participação das mulheres no setor de TI tem relação com a associação, historicamente construída, entre tecnologia e masculinidade.

Mulheres em desvantagem no mercado de trabalho

Essa identificação, da tecnologia com o universo masculino, contribui para a sub-representação das mulheres no mercado de trabalho de TI, gerando uma distorção alarmante no setor: entre os anos de 2007 e 2017, o número de mulheres ocupadas no Core TI (conjunto das empresas cuja finalidade social são atividades tipicamente de TI) aumentou de 21.253 para 40.492, porém, o percentual de participação feminina caiu, de 24,05% para 19,83%¹. Isso porque, do outro lado, a ampliação da taxa de ocupação masculina foi muito maior, de 67.106 para 163.685, um crescimento de 144%¹. 

Distorção semelhante se observa quanto à remuneração das trabalhadoras de TI. Se em 2007 elas recebiam 5,34% a menos que os homens, 10 anos depois, a diferença aumentou para 11,05%. Além disso, as mulheres ganham em média menos que os homens em qualquer ocupação (chega a 16,48% a diferença entre engenheiras e engenheiros em computação). Ganham menos, inclusive, a despeito de terem maior escolaridade do que os homens empregados no setor¹.

Quanto à formação, as mulheres que atuam no setor de TI são mais bem preparadas que os homens do mesmo setor. Enquanto a média de mulheres possuem ensino superior completo, a média masculina possui ensino superior incompleto. Esta diferença de qualificação puxa o salários das mulheres para cima, no entanto quando comparado com homens com o mesmo nível de escolaridade as mulheres continuam recebendo menos.

O drama do trabalho doméstico

Além dessas disparidades, é mais difícil para as mulheres alcançarem o padrão de flexibilidade laboral e de vida exigido pelas empresas de tecnologia. Devido a papéis de gênero e parentalidade tradicionais, as mulheres acumulam atividades de cuidado familiar e do lar, ou seja, de trabalho doméstico, com as tarefas do trabalho profissional. Por isso que, desde a década de 1990, pesquisas observam que as trabalhadoras de TI são mais impactadas pelo trabalho em regime de home office.

As mulheres enfrentam maiores dificuldades em estabelecer os limites entre espaço e tempo de trabalho profissional e espaço e tempo das demais atividades, por causa da forma desigual como se dá a divisão do trabalho doméstico entre os sexos. Muitas vezes o modelo de home office é utilizado como forma para se manter presente na rotina dos filhos e do cuidado doméstico, condicionando as profissionais a terem que executar o trabalho profissional durante a noite e madrugada, reduzindo assim o tempo livre e o tempo de descanso. Considerando os casais heterossexuais, é comum que, mesmo quando os homens dividem a realização das tarefas domésticas, caiba à mulher a responsabilidade por planejá-las, o que acrescenta uma carga mental considerável ao cotidiano das trabalhadoras.

Papéis de gênero afastam mulheres da tecnologia

A divisão sexual do trabalho permeia não apenas os conflitos entre o trabalho produtivo (trabalho assalariado) e o trabalho reprodutivo (trabalho doméstico), mas também os papeis e as funções socialmente caracterizadas como femininas e masculinas: o “soft work” é um termo utilizado para caracterizar as funções que dependem principalmente de habilidades consideradas inatas aos seres humanos, como a comunicação, gestão de pessoas, planejamento e organização de projetos, habilidades estas consideradas naturais a mulheres; enquanto o “hard work” se caracteriza por atividades que dependem de habilidades técnicas como lógica, programação, arquitetura e infraestrutura, e seriam consideradas funções masculinas. Sendo assim são criados nichos de atuação dos gêneros, onde se justificam a atuação da mulher em determinadas funções e não em outras.

Além da dificuldade no ingresso de mulheres no setor é identificada também a dificuldade de permanência destas. O atendimento a diversos clientes, que envolve constante deslocamento e viagens, além dos modelos de trabalho por projetos e entregas que implicam, em sua maioria, em flexibilização contratual, ausência de estabilidade e jornadas de trabalho longas e desreguladas são alguns dos fatores que reduzem o tempo de permanência de mulheres no setor.

Todos os fatores mencionados anteriormente refletem nas condições de trabalho de mulheres em TI e no processo de masculinização do setor. Este processo reflete nas relações profissionais dentro do ambiente de trabalho onde, muitas vezes, são naturalizados discursos e posturas correspondentes a uma masculinidade tóxica, que envolve comentários misóginos e assédio. Assim, as mulheres enfrentam uma série de barreiras para a ascensão profissional e o aumento salarial, além de um processo de exclusão e desvalorização.

Pelo fim do machismo dentro e fora do local de trabalho!

É urgente o reconhecimento destas condições de trabalho das mulheres no setor e a ampliação de direitos e melhores condições para o exercício de suas funções produtivas. A flexibilização crescente das relações de trabalho, da qual o setor de TI é exemplar, é especialmente prejudicial às mulheres. Assegurar maiores remunerações, estabilidade e permanência destas no setor é fundamental para garantir um mínimo de autonomia às mulheres e segurança financeira para superação da dependência em relação aos parceiros – que pode ser caracterizada por relações de abuso e violência.

No entanto, o fenômeno da divisão sexual do trabalho (que permeia todas a condições mencionadas anteriormente) não é um fenômeno transitório: são impostos limites estruturais para a transformação da realidade da mulher dentro deste modelo de produção. Portanto, a ascensão de algumas mulheres a cargos de liderança e inserção intencional de mulheres no setor como forma de diversificação atuam como um telhado de vidro da igualdade baseada no mercado, que não altera a realidade das mulheres e a condição de exclusão e exploração destas trabalhadoras.

Em um próximo texto, trataremos de forma mais profunda dos limites das soluções paliativas para a questão da mulheres no setor de TI e o entusiasmo corporativo pela diversidade baseado em meritocracia e não em igualdade, que mascara a problemática social e econômica do trabalho feminino.


Autores:

Sanchez
Dímitre Moita


Fontes:

¹ SOFTEX. Mulheres na TI: atuação da mulher no mercado de trabalho formal brasileiro de tecnologia da informação. Associação para promoção da excelência do software brasileiro. 2019.

² CASTRO, B. Afogados em contratos: o impacto da flexibilização do trabalho nas trajetórias dos profissionais de TI. Orientador: ARAÚJO, A. M. C. 2013. 388 f. (Tese de Doutorado) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/280163/1/Castro_Barbara_D.pdf

³ POTENGY, G. F. Espaço e tempo no trabalho para as redes de comunicação e informação. Estudos de Sociologia, 11, n. 21, p. 18, 2006.


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DENÚNCIA: Involves demite 30% de seus funcionários

A Involves anunciou na última semana o desligamento de mais de 80 pessoas, número que corresponde a 30% de seu quadro funcional. A empresa é uma startup de Florianópolis que desenvolve soluções para trade marketing.

No mês de abril, a Involves já havia reduzido salários e suspendido contratos de trabalho de seus funcionários (através da MP 936 de Bolsonaro). Isto demonstra não só que esta é mais uma empresa que coloca o lucro acima da vida dos trabalhadores, mas também a ineficácia das medidas do governo que retiram direitos trabalhistas para (supostamente) preservar empregos.

Além disso, em fevereiro, a Involves havia captado R$23,5 milhões para acelerar sua expansão para Colômbia e México. Isto a coloca no hall das startups que recebe vultosos aportes financeiros, mas não adota medidas para garantir salários e empregos em momentos de crise. Pelo contrário: ao primeiro sinal de dificuldades financeiras, a empresa atacou direitos de seus funcionários, para logo em seguida, demitir em massa.

Fundada por integrantes de duas bandas catarinenses de rock, a Involves diz ter compromisso com a música e com a sociedade. Em suas propagandas, levanta as bandeiras da responsabilidade social e de melhores relações de trabalho, em todos os shows e para todos os públicos. Porém, quem paga a banda escolhe a música, e quando o lucro dos acionistas foi ameaçado pela pandemia do COVID-19, a empresa não hesitou em mandar seus trabalhadores irem cantar em outra freguesia. Assim, a empresa mostrou que não é diferente de outras startups.

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Startups e demissões em massa: uma história que se repete

É comum vermos nas revistas de negócios, ou mesmo em matérias jornalísticas para o público em geral, o “case de sucesso” de uma startup. Uma pequena empresa de garagem, fundada por jovens empreendedores, rapidamente passa a valer milhões, como em um passe de mágica. Os motivos do sucesso seriam a visão dos fundadores, a soluções inovadoras que fornecem aos clientes e as modernas práticas de gestão de pessoas. O ambiente da empresa, com chopeira e mesa de sinuca, era o paraíso do trabalhador. E tudo isso teria sido possível graças, não a Deus, mas aos “anjos”: investidores bilionários que acreditaram no “sonho”.

Por outro lado, vemos várias notícias de startups que recebem investimentos milionários e efetuam contratações, mas, logo em seguida, demitem em massa seus “colaboradores”. A justificativa para isso é sempre um imprevisto que deixa a empresa em dificuldades financeiras. Isto se tornou mais comum durante a pandemia de COVID-19 (como no caso da Gympass, da GetNinjas, da Stone Pagamentos e da Involves). Porém, tal situação não era inédita, como mostramos no caso da Resultados Digitais.

Trabalhadores e patrões estão no mesmo barco?

Embora os CEOs de startups que praticaram demissões em massa não cansem de escrever comoventes relatos narrando o quão doloroso é ter que demitir pessoas incríveis e que tanto contribuíram com a empresa, é evidente que o principal prejudicado nesta situação é o trabalhador.

Afinal, a diretoria da empresa continua recebendo valores acima de 20 mil reais e mantendo alto padrão de vida. Os fundos de investimento bilionários, que brincam de loteria investindo em startups, não se incomodam com alguns milhões de dólares de prejuízo.

Já os trabalhadores, que dedicaram tantas horas extras no conhecido ritmo acelerado de trabalho das startups, veem seus esforços serem recompensados com o desemprego. Por mais preparados que estes profissionais estejam, procurar emprego é sempre uma incerteza, ainda mais em um mercado cada vez mais saturado de profissionais qualificados.

A narrativa empresarial sobre este tipo de demissão em massa é a do líder que, frente a uma fatalidade, deve tomar uma decisão difícil. Relatos repletos de sentimentalismo descrevem as várias políticas de redução de danos aplicadas pela empresa antes das demissões, mas que não surtiram efeito, restando apenas os desligamentos em massa como alternativa.

Tais relatos costumam ser bem recebidos, com CEOs e “líderes” sendo elogiados pela transparência e humanidade ao lidar com a situação. Mas será que as demissões em massa seriam realmente uma tragédia inevitável?

O mito do fatalismo das demissões

De fato, é muito difícil prever quando uma empresa irá passar por dificuldades. Afinal, o mercado é imprevisível e assolado por crises cíclicas. O cancelamento de um contrato de um cliente importante, a chegada de um novo player no mercado, o estouro de uma bolha financeira nos Estados Unidos, o surto de uma doença incurável ou qualquer outro fenômeno pode causar oscilações de mercado que prejudicam a saúde financeira de uma empresa.

Entretanto, é possível que empresas adotem medidas para manter empregos em tempos difíceis. Por exemplo, uma startup poderia guardar no caixa uma parte dos aportes financeiros milionários que recebe, usando-o para evitar demissões. Porém, não é isto o que acontece, já que os investidores querem que os milhões que injetaram na empresa se tornem bilhões. Empresas existem para dar lucro a seus donos, e, por isso, o auxílio aos trabalhadores fica sempre em segundo plano.

E se, individualmente, as startups agem com descaso ao trabalhador, coletivamente é ainda pior, de modo que o setor empresarial exige dos governos medidas que protejam seus lucros fazendo o trabalhador pagar pela crise.

Isso ficou evidente no período da pandemia do COVID-19, no qual empresas e organizações empresariais brasileiras, ao invés de defenderem políticas de Estado que visassem a preservação do emprego, do salário e da saúde do trabalhador, pressionaram os governos não só para a reabertura do comércio (ignorando as recomendações de organizações de saúde) como também para a aprovação de leis que permitissem redução salarial e de direitos durante a pandemia, como a Medida Provisória 936 de 2020.

Precisamos defender nossos empregos!

Os trabalhadores em startups não podem mais aceitar que seus empregos fiquem à mercê das intempéries do mercado e da boa vontade dos CEOs. Se é verdade que acionistas, CEOs e trabalhadores “estão no mesmo barco” em situações de crise, então não é justo que o trabalhador perca o emprego enquanto os empresários continuam ricos.

É necessário exigir das empresas e do Estado que adotem políticas que preservem empregos, salários e direitos nos momentos em que as empresas passam por dificuldades financeiras. Categorias com tradição de organização sindical, como os metalúrgicos, organizam greves e manifestações ao primeiro sinal de demissão em massa, e conseguem assim manter seus postos de trabalho. Nós, trabalhadores da área de tecnologia, podemos fazer o mesmo, e o Infoproletários se coloca à disposição para ajudar nesta luta.

Rotatividade no Setor de Tecnologia: uma forma de reduzir salários

A rotatividade da força de trabalho é um dos dados importantes para o mercado de trabalho. Ao se atentar para o ritmo de contratação e demissão realizadas pelos empresários, a análise da rotatividade revela a dinâmica da vida do trabalhador. O setor de tecnologia da informação tem uma das mais altas taxa de rotatividade em comparação com outros setores. Isso significa que o trabalhador da área de tecnologia está constantemente vivenciando novos processos de seleção e contratação, nova equipe, novo salários e atividades.

Há varias razões para que isso ocorra. As mais destacadas pelos empresários estão relacionadas as particularidades do setor: uma força de trabalho jovem que está constantemente em busca de novas experiências; a velocidade das mudanças das tecnologias e a necessidade de encontrar novas equipes que dão conta dessas inovações; o ritmo acelerado dos projetos que levam a desgastes da força de trabalho e necessidade de demissões e recontratações.

Certamente, todos esses fatores contam para o setor de tecnologia bater recordes de rotatividade. No entanto, há um fator fundamental que os empresários não falam: o uso da rotatividade como uma  forma sistemática de reduzir salários. Isto é, demitir uma equipe inteira que passou a receber salários maiores, e contratar uma nova equipe com salários menores. Esse é o fator determinante para a alta rotatividade do setor.

A experiência de vida dos trabalhadores de T.I. revela esse processo. Basta conversar com os colegas de trabalho sobre as experiências de chegar numa nova equipe recebendo menos que os trabalhadores que foram demitidos e ter que fazer o mesmo serviço ou mais ainda. As novas contratações vem sempre cercadas de maior pressão para fazer mais com menos trabalhadores, recebendo menos salários.

Em estudo bastante preciso sobre a rotatividade dos trabalhadores no Brasil, o DIEESE, revela esse mecanismo dos empresários: “É expressiva, neste sentido, a constatação da perda salarial, seja em caso de retorno para o mesmo setor, ou seja para outro segmento

da atividade econômica, em todos os anos analisados no estudo, considerando os

trabalhadores desligados sem justa causa, motivo de desligamento tipicamente patronal e quantitativamente o principal tipo de desligamento praticado no “ajuste da mão de obra” no mercado de trabalho do Brasil, responsável por mais de 50,0% dos desligamentos no período analisado.”


 Recentemente o setor de tecnologia viveu uma leva de demissões em massa e retirada de direitos dos trabalhadores, sobretudo de empresas multinacionais. O Inforproletários denunciou essas medidas em diversas empresas, como a GetNinjas, Stone, GymPass, entre outras. Para o trabalhador ficou claro que o lucro das empresas foi colocado acima de sua vida e a vida de seus familiares. Sobretudo no contexto da pandemia do COVID-19.

Passado essas demissões e retiradas de direitos, hoje essas mesmas empresas anunciam que estão em fase de expansão e contratando. O mecanismo perverso da rotatividade não para mesmo na pandemia, apenas confirmando que para os empresários a vida do trabalhador é apenas um número no seu cálculo incessante para a busco de mais lucros.
 

Mais uma vez, todo o discurso empresarial de responsabilidade social e melhores relações de trabalho revela-se pura hipocrisia. Quando precisa escolher entre manter os empregos dos trabalhadores ou garantir o lucro dos acionistas, as empresas não hesitam em jogar os trabalhadores à própria sorte.O Infoproletários é um espaço de organização dos trabalhadores de tecnologia e um canal de solidariedade. Nesse momento é fundamental denunciar e expor as atitudes dos empresários que colocam os lucros acima da vida. Compartilhe suas dificuldades com o Infoproletários em nossa página https://facebook.com/infoproletarios, e mandem mensagens também para nosso email infoproletarios@gmail.com.

Stone Pagamentos: Um Exemplo De Crueldade

Vivemos um momento em que a sociedade deveria estar focada em preservar a vida dos trabalhadores e seus familiares no combate ao COVID-19. No entanto, a lógica do lucro impera e os proprietários das empresas descartam os trabalhadores para manter seu capital.
 
 Como denunciado pelo Infoproletários, esse foi o caso da Stone Pagamentos. No dia 15 de maio de 2020, a empresa demitiu 1.300 trabalhadores por vídeo-conferência , no que virou um dia trágico para o setor de tecnologia. A justificativa do corte foi de ajuste de pessoal para o contexto da pandemia. Ou seja, manter o lucro enquanto a Stone deixa os trabalhadores a sua própria sorte.

Menos de duas semanas depois da demissão em massa, os multimilionários proprietários da Stone Pagamentos investiram e compraram a empresa Vitta, uma startup na área da saúde para gerenciamento financeiro e de consultas médicas.

Se não havia recursos para manter os trabalhadores, de onde saíram os recursos para a aquisição de outra empresa cujo valor de mercado já estava na casa dos milhões? A operação deixa claro que dinheiro não faltava, mas o lucro da empresa ficou acima da vida dos trabalhadores.

A startup Vitta já vinha angariando recursos com investidores de peso, como Andre Street, dono da Stone Pagamentos, e Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central do Brasil. Essa relação íntima entre as empresas e investidores explicita o mecanismo pelo qual os empresários largam os trabalhadores e investem neles mesmos.

A Vitta não foi a única aquisição da Stone Pagamentos. Além dela ocorreram investimentos, na mLabs, uma empresa  de gerenciamento de redes sociais, na Delivery Much, uma plataforma de  entrega de comida, e na MVarandas, uma empresa de tecnologia para serviços de alimentação.

Na carta que a Stone publicou ao anunciar as demissões, direcionada aos “empreendedores” do país (e não aos 1.300 trabalhadores demitidos), o CEO da empresa, Thiago Piau, afirmou estar contribuindo com a sociedade durante a pandemia. Diz ele que, apesar das demissões, a empresa oferecia incentivos financeiros aos seus clientes e as empresas dos setores mais afetados pela crise.

Essa posição defende um projeto de sociedade com a falsa ideia de que seria ajudando o empresário nós ajudaríamos os trabalhadores e o restante da população. Até o “benefício” do Linkedin Premium, oferecido aos 1.300 demitidos, aponta nesse sentido: aos trabalhadores, caberia conformar-se com a situação e buscar um novo emprego, que certamente viria quando a economia melhorar.

As recentes aquisições da Stone mostram que este discurso é demagogia. Está provado que a saúde financeira da  empresa cresce o suficiente até para comprar outras.

Mas onde estão as prometidas vantagens para o restante da sociedade que viriam com isto? Por que, ao  invés de surgirem empregos, ocorreram demissões? A lógica da busca incessante pelo lucro, levou os empresários multimilionários a colocar 1.300 trabalhadores na rua, para na sequência adquirir e investir em seus próprios negócios. Esse é um exemplo explícito de como a lógica capitalista é contra vida dos trabalhadores e favorece apenas aqueles que já são donos de tudo.

Já é hora de nós, trabalhadores, nos unirmos para combater essa lógica e defender nosso próprio projeto de sociedade. Uma sociedade na qual o trabalhador, que é o verdadeiro criador de valor e de riqueza, seja respeitado e não descartado em nome do lucro das empresas. Para isso, devemos criar espaços de solidariedade e fortalecimento dos nossos direitos e de nossas vidas.

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LIVE: Pandemia e Trabalhadores de TI

QUANDO:
Quarta-feira, 20/05 das 19:30 às 20:30

O Infoproletários convida a todos para refletir sobre a pandemia e os trabalhadores de tecnologia.
Qual a gravidade e intensidade da pandemia? Quais seus efeitos econômicos e sociais? Como isso afeta os trabalhadores, em especial, no setor de tecnologia?

Já estamos vivendo demissões em massa, aumento da carga de trabalho para quem fica, precarização dos salários e benefícios, perda de direitos trabalhistas, homeoffice generalizado, entre tantos. Como podemos nos organizar nesse momento e lutar por nossos direitos, nossa vida e a vida de nossos familiares?

Marque a data na agenda, prepare um lugar aconchegante para assistir e compartilhe com os conhecidos.

Juntos nós somos mais fortes!

DENÚNCIA: Demissão em massa na Stone Pagamentos. 1300 pessoas sem emprego da noite para o dia.

Seguindo a infeliz tendência que tomou o setor de serviços, a Stone Pagamentos realizou nessa última terça-feira 12/05 a demissão de 1300 pessoas: a maior demissão até o momento no setor de tecnologia que tivemos notícia. Segundo o portal Infomoney o número representa 20% de todo o quadro de funcionários da empresa.

Num processo controverso, sumário e mal justificado, os trabalhadores foram surpreendidos pela manhã com uma teleconferência que anunciava suas próprias demissões. As justificativas fornecidas pelo CEO da Stone, em carta direcionada aos seus clientes (não aos próprios funcionários), incluem excesso de pessoal acima do necessário para funcionamento durante a pandemia.

Considerada um unicórnio brasileiro (nome dado a startups que chegam ao valor de mercado de 1 bilhão de dólares ou mais antes de abrirem capital), a Stone foi fundada em 2012 e já teve seu valor de mercado avaliado como próximo ao da Cielo no mercado brasileiro de meios de pagamento e maquininhas de cartões.

Em março de 2020 seu lucro líquido reportado foi de R$ 804,2 milhões, seus co-fundadores são bilionários conhecidos e a empresa, ao contrário do que alega, não demonstra estar com reais dificuldades financeiras [1][2]. Do contrário não estaria anunciando também 30 milhões em incentivos financeiros e 100 milhões em microcrédito para seus clientes [3]. A empresa e seus controladores tem, portanto, plenas condições de manter o emprego dos seus funcionários nesse momento. Se não o faz é por escolha deliberada.

Sabemos como é o ritmo de trabalho em startups em geral. Com folha bem reduzida, muita pressão por resultados, assédios da gerência, tentativas sucessivas de cooptar os funcionários para a forma de pensar do empresário e jornadas extensas, o quadro se torna dramático para todos: para quem sai a incerteza de recolocação em novo emprego; para quem fica acúmulo de funções e o receio de ser o próximo.

Vítimas do planejamento irresponsável dessas empresas, os trabalhadores ficam a mercê do redimensionamento agressivo do quadro de funcionários. Esse caso não foi diferente do que temos observado inclusive antes da pandemia: alguns dos demitidos relataram de forma pública que mal conseguiram completar 3 meses de empresa.

A Stone se aproveitou de maneira imoral do coronavírus para demitir e assim garantir seus lucros. Trata-se de mais uma manobra para jogar a responsabilidade pela crise econômica que se intensifica nas costas dos trabalhadores sob a desculpa da pandemia. Mal disfarçado com falso compromisso social, o gesto reflete a postura da empresa em que o lucro está acima da vida das pessoas.

Como forma de atenuar o absurdo, a empresa se dispôs a manter alguns dos benefícios por quatros meses, a doar computadores e celulares corporativos aos demitidos e oferecer licenças Premium no LinkedIn para facilitar sua realocação. Se esqueceram no entanto que auxílio não é renda, que LinkedIn Premium não é salário e que computador não é janta.

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Fontes:

  1. https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/03/02/lucro-da-stone-cresce-1635percent-em-2019.ghtml
  2. https://exame.abril.com.br/negocios/stone-tem-lucro-liquido-111-maior-no-3o-trimestre/
  3. https://cuidedopequenonegocio.com.br/sobre-o-movimento

O que os sindicatos estão fazendo para ajudar o trabalhador de tecnologia em tempos de coronavírus?

Durante os últimos 2 meses, o Infoproletários vêm denunciando as medidas que governo e empresas adotam para, durante a crise do coronavírus, manter a saúde financeira das empresas às custas da saúde e dos direitos do trabalhador. Exemplo disto é a Medida Provisória 936 (MP 936), criada por Bolsonaro, que, conforme comentamos em postagem anterior, permite a redução de salários durante a pandemia.

Diante disso, gostaríamos de chamar atenção para o papel negativo que alguns sindicatos que representam trabalhadores da área de tecnologia vêm exercendo frente aos ataques que sofrem seus representados. O Sindicato dos Publicitários de São Paulo, por exemplo, que representa profissionais como UX Designers que trabalham em agências de publicidade, assinou um acordo com os patrões onde, sob a justificativa de “evitar desemprego”, abre mão do reajuste salarial anual dos trabalhadores, além de validar todos os ataques presentes nas MPs 927 e 936 de Bolsonaro. Já o Sindicato de Processamento de Dados de Santa Catarina, que representa quem trabalha em empresas de software, sob a justificativa da “manutenção de postos de trabalho”, propôs à seus representados um acordo que, além de estender os ataques da MP 936 aos trabalhadores das faixas salariais não abrangidas pela medida, ainda permite que as empresas parcelem o pagamento de verbas rescisórias devidas ao trabalhador quando este é demitido, ou seja, facilita as demissões ao invés de preveni-las, sendo que o trabalhador que vai ficar sem renda por causa da demissão ainda terá que esperar para receber as verbas rescisórias, o seu dinheiro. Em outras categorias profissionais, a situação chegou ao ponto de chamar atenção do Ministério Público do Trabalho, que conseguiu uma liminar contra vários sindicatos que haviam assinado acordos que retiravam direitos trabalhistas sem ao menos consultar seus representados.

Ao analisar os acordos propostos e as explicações apresentadas por tais sindicatos, percebe-se que eles aderem ao discurso empresarial de que a única forma de salvar as empresas e, portanto, os empregos, seria sangrando os trabalhadores. Aos sindicatos, então, restaria apresentar aos seus representados o mesmo dilema cruel que lhes apresentam os patrões: ou aceitam a perda de direitos, ou perderão seus empregos.

Mas, por que há sindicatos que adotam esta postura? Será que sacrificar o trabalhador seria a única saída para a crise? É o que veremos a seguir.

Quais alternativas o trabalhador têm frente à crise do coronavírus?

A crise do coronavírus, do ponto de vista econômico, é semelhante às outras crises que afligem o mercado de tempos em tempos, no sentido de que desestimulam os empresários a investir. Em tais situações, assim como agora, o empresariado é rápido em reagir à crise demitindo e cortando salários. Porém, há outras saídas a serem consideradas.

Uma alternativa é o próprio Estado, que hoje é sustentado pelos impostos dos produtos consumidos pelos trabalhadores, defender os empregos durante a crise, seja via incentivos fiscais, oferecendo crédito às empresas ou mesmo arcando com custos da folha de pagamento. A nacionalização de empresas para que estas cumpram sua função social e mantenham os empregos também não estão descartadas, como fez o governo dos EUA com a GM e a Chrysler quando estas estavam falindo. O Brasil têm recursos para adotar tais medidas, principalmente se considerarmos a possibilidade da taxação de grandes fortunas (afinal, porque os pobres teriam que pagar pela crise dos ricos?) e também o fim do desvio de dinheiro para pagamento da ilegal Dívida Pública, que, em 2019, abocanhou quase 40% do orçamento da União.

Outra alternativa seria o controle dos trabalhadores sobre a empresa, como fizeram os trabalhadores da empresa Flaskô em Sumaré, que ocuparam as fábricas da empresa quando esta estava à beira da falência e continuam tocando a empresa até hoje de forma autogerida, mantendo os empregos e a renda dos envolvidos no processo.

É papel dos sindicatos lutar por essas pautas?

Muitos poderiam argumentar que tais saídas para a crise, onde aparecem exigências ao Estado, estão fora da alçada dos sindicatos. Nada mais falso. Afinal, o movimento sindical desde sua origem entende que, para melhorar a vida do trabalhador, a luta contra os patrões deve estar em conjunto com a luta contra o Estado. A origem dos sindicatos, que nascem entre os operários ingleses do séc. XIX, se confunde com o surgimento do movimento cartista, que consistia em uma lista de exigências do povo (como sufrágio universal e fim do trabalho infantil) ao parlamento inglês.

Além disso, a única força social que teria poder para pressionar os políticos, em sua maioria servis aos empresários, a adotarem medidas a favor dos trabalhadores seria a força dos próprios trabalhadores organizados. Recentemente na história do país, tivemos um pequeno vislumbre deste poder durante a paralisação dos caminhoneiros, que obrigou o governo Temer a mudar algumas de suas políticas. Mas a real força da classe trabalhadora em movimento, o Brasil pôde ver em momentos anteriores da história, como nas greves dos metalúrgicos do ABC paulista na década de 80, que se alastraram país afora e culminaram no fim da ditadura militar e de sua política de arrochos, ou então na Greve Geral de 1917, que conquistou direitos para o trabalhador brasileiro que perduram até hoje. Uma categoria de trabalhadores importante como a dos trabalhadores da área de tecnologia, capaz de parar tudo, tanto a produção quanto serviços importantes, têm um grande potencial para mudar os rumos do país se for à luta

É possível lutar por essas pautas no presente momento?

Sabemos que, entre os trabalhadores da área de tecnologia do país, especialmente entre os que trabalham em empresas privadas, prevalece a velha ideologia da direita de que é possível prosperar cooperando com a empresa e sendo um trabalhador competente, de modo que poucos consideram a possibilidade de se organizarem enquanto trabalhadores para fazer frente ao avanço dos patrões sobre os direitos trabalhistas. Muitos sequer enxergam estes ataques das empresas como ataques. Entre estes trabalhadores, não haveria sequer disposição para se filiar em sindicatos ou para fazer greve, quanto mais para aderir a um movimento mais amplo por direitos ou uma ocupação de fábrica.

Hoje, isto pode ser verdade. Mas não precisará continuar sendo verdade amanhã. Enquanto o trabalhador ainda não têm forças para resistir à perda de direitos que lhes é imposta, a melhor alternativa pode ser a de assinar um acordo “menos pior”, onde se percam poucos direitos. Entretanto, é dever do sindicato, que (supostamente) é composto pelos trabalhadores que têm mais consciência de classe, levar essa consciência  para os demais trabalhadores, justamente para que haja condições para a luta no futuro. Um sindicato que não está junto dos seus representados para que estes possam lutar no futuro estará sempre assinando acordos rebaixados, atendendo mais aos interesses do patrão do que aos interesses do trabalhador.

Para que um sindicato avance na consciência de classe de uma categoria profissional, é necessário diálogo. E diálogo não se faz através de uma consulta online ou de uma ou duas assembleias por ano. Se faz através de troca de informações em contato direto com a categoria, ouvindo suas queixas, trazendo materiais informativos a respeito de questões pertinentes, da apresentação de contrapontos ao discurso ideológico empresarial, de estimular a criação de organizações no local de trabalho, enfim, do constante contato com os trabalhadores. Mas, para que isso aconteça, é preciso alterar a política dos atuais dirigentes sindicais.

O Infoproletários é uma organização criada por trabalhadores da área de tecnologia, majoritariamente empregados em empresas privadas, que sentem a necessidade de buscar melhores condições de trabalho para si e para seus colegas. Percebemos que os sindicatos de nossas categorias estão totalmente ausente de nossos locais de trabalho e de nossas vidas, deixando de cumprir o seu papel, e deixando um vácuo preenchido pela ideologia do patrão. Buscamos fazer todo o trabalho que eles deixam de fazer, informando e conscientizando os demais trabalhadores da nossa área para que possamos lutar em conjunto por relações de trabalho mais justas. Pretendemos pressionar os sindicatos para que atuem em favor das categorias que representam e expulsar os oportunistas das direções dos sindicatos, substituindo-os por trabalhadores conscientes.

Convidamos você para fazer parte desta luta.

O que espera o trabalhador de tecnologia demitido

O Brasil do Covid-19 é ainda mais hostil com os trabalhadores.

Nestas últimas semanas, nós do Infoproletários veiculamos algumas notícias de demissões de trabalhadores de tecnologia. Elas afetam um mercado com muitas pessoas que se formaram nos últimos anos e que precisam entrar em um mercado cada vez mais saturado.[1]

A situação se torna mais tensa na medida em que empresas de diversos países desenvolvidos também têm demitido [2] [3] [4] . Todos os novos desempregados estarão concorrendo para as vagas onde empresas ainda contratam, pois ninguém consegue manter sua casa sem receber salários com o valor pago de seguro-desemprego.

O trabalho virtual é uma constante para trabalhadores de tecnologia e deveria sim ser usado neste momento de pandemia, em que sair de casa se torna um risco de morte para si e para os outros. Mas vemos que quando a vida é de interesse do trabalhador, isso não importa.

Empresas criadas há poucos anos estão fechando vagas e demitindo funcionários. Elas são as mesmas que tiveram propagandas nas mídias as tratando como inovadoras e oásis para se trabalhar, com aquela visão falsa de um espaço mais moderno.

O local de trabalho nem importa tanto neste momento. Os atrativos, que deveriam ser estabilidade, salário, higiene e condições humanas, eram ignorados nessas empresas,  e agora fica visível que eram Marketing para atrair os mais jovens e pressionar os salários para baixo com “mimos” no lugar do necessário para suas vidas.

Burocracia

O Congresso aprovou uma lei controversa de pagamentos de 600 a 1.200 reais por pessoa que era trabalhador informal antes da crise do Covid-19. Apesar disso, existe uma lista extensa de regras para a pessoa receber o dinheiro. Poucos devem conseguir sacar o dinheiro quando, neste momento de pandemia, deveria ser algo simples para qualquer um fazer. 

Pagar para todos os cidadãos, universalmente, ajudaria a resolver o problema causado pela burocracia. Se todos podem receber, a burocracia de verificação some, e quem realmente precisa pode retirar rapidamente o dinheiro.

A inflação e empobrecimento dos trabalhadores

Já é possível ver que a falta de alguns produtos causam inflação, o preço do papel higiênico não foi noticiado mas é possível ver alguns mercados cobrando o dobro do que meses atrás.

Ao contrário do gás onde já têm notícias de preço a quase o dobro do máximo, que é de 70 reais. Já existem locais onde o preço do botijão de gás é 130 reais, o que é um problema para trabalhadores que ganham o seguro-desemprego, com teto de R$ 1.800,00 [5] [6]

Se continuar assim, a inflação corrói o salário de quem ainda recebe salário, mas as demissões não param, o trabalhador então não consegue mais ter o poder de compra que tinha anteriormente, empregado ou desempregado passará necessidades.

Os sindicatos

Numa situação de inflação, desemprego, dificuldade de moradia, onde estão os sindicatos?

Muitos deles estão acostumados a receber o imposto sindical sem sair da sede. Seus dirigentes sindicais não conseguem mobilizar greves para garantir o emprego, os dissídios da inflação nos salários e nem nada. Estão desconectados das bases e não trabalham para os funcionários das empresas que demitem em massa, e sim para eles mesmos, para manter seus cargos nos sindicatos. [7]

Nossas tarefas

Precisamos ressuscitar a organização dos trabalhadores em sindicatos autônomos, longe do Estado e dos patrões. É o que precisamos para podermos manter nossa organização e  controlar objetivamente greves e ajuda mútua, seguindo os pontos:

  1. Proibição de demissões,
  2. Correção dos salários,
  3. Garantia do isolamento social.

Se junte aos Infoproletários.

O Infoproletários é um espaço de organização dos trabalhadores de tecnologia e um canal de solidariedade. Nesse momento é fundamental denunciar e expor as atitudes dos empresários que colocam os lucros acima da vida. Compartilhe suas dificuldades com o Infoproletários em nossa página https://facebook.com/infoproletarios , e mandem mensagens também para nosso email infoproletarios@gmail.com.
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Autor: Levy Sant’Anna

Referências:

[1]

[2]

https://www.theguardian.com/business/2020/apr/09/us-unemployment-filings-coronavirus

[3]

https://www.theguardian.com/world/2020/apr/03/coronavirus-uk-business-activity-plunges-to-lowest-ebb-since-records-began

[4]

https://www.usatoday.com/story/money/2020/04/09/coronavirus-another-6-6-m-workers-filed-jobless-claims-layoffs-surge/2974294001/

[5]

https://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/preco-do-gas-dispara-para-ate-r-130-o-botijao-e-procon-fiscaliza/

[6]

https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/01/16/seguro-desemprego-e-corrigido-parcelas-vao-ate-r-18-mil.ghtml

[7]


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